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Título: CRECHE (s) – “O que andámos para aqui chegar…Mos?!”

Célia Gandres

É verdade, a Caminhada tem sido longa mas, tem valido a pena!

 

As Creches que existem nos dias de hoje são diferentes das que tivemos no passado. Assim escrito, soa a frase feita mas, não é por aí que queremos ir!

 

Tal como diz a outra canção – “Vem, vem por aqui, dizem-me alguns, estendendo os braços e seguros quando me dizem, vem por aqui!”

 

Mas, a canção diz mais – “Eu só vou por onde me levam os meus próprios passos!”

 

Podem perguntar porquê (e devem perguntar…) mas, todos temos feito uma Caminhada grande nas Creches que temos atualmente, que merece toda a nossa atenção.

 

Vamos lá saber o que tem acontecido: quando pensamos em Creches – a tal resposta educativa, social e familiar para crianças dos 0 aos 3 anos – ficamos logo naquele lugar onde se cuida da criança, dos bebés, damos de comer, mudamos as fraldas e cantamos umas cançõezinhas, de preferência de embalar e com “trá-lá-lá” pelo meio (para não cansarmos muito as crianças), com embalos para não chorarem em demasia e pouco mais.

 

Mas… nos dias que temos, não é bem assim: os nossos bebés/crianças brincam muito com tintas (comestíveis, pois então!), massas de enrolar e deixar cair, tupperwares (vejam bem!), tachos e panelas, lençóis que fazem de baloiço, luzes com cores e músicas diversas onde a nossa Imaginação nos leva, mais e mais longe.

 

Ah e Há… – os colos, de preferência grandes e fofinhos, com beijinhos e miminhos porque os Afetos são o motor que nunca nos deixa parar.

 

E, brincamos muito com tudo isto – com camas enormes com balões lá dentro, com túneis e tendas que rebolamos e voltamos a rebolar, com caixas grandes, daquelas que nos deixam tapar bem tapadinhos e escrever com os lápis de cera grossos, bem coloridos que nos fazem querer voltar outra vez! E, depois, muitos de nós, gostamos de garrafinhas com sons diferentes e das garrafas com brilhantes que nos põem mais sossegadinhos e a olhar com muita atenção e com aqueles elásticos que, esticados uns nos outros, nos deixam ir por aqui e por ali a fazer de cobrinhas saltitantes para nos ajudar a pôr melhor de pé e a andar com mais segurança num Mundo que tem sempre alguém à minha espera (ou deveria ter…).

 

Também falamos de adultos com olhares e sentires mais intensos, sejam os educadores ou os auxiliares que, cada vez, se interessam mais e procuram fazer dos seus dias e das suas crianças, Dias com D muito GRANDE, assim bem Grande, como quem quer ir para um Mundo onde tanto é possível!

 

Falamos de Explorações Sensoriais, de descobrir o Mundo à nossa volta, bem ali, dentro e fora da sala, com cores, sons e texturas que vêm ter a nós e que queremos uma e outra vez tocar, saborear, cheirar, olhar, ouvir… e que nós vamos à sua descoberta, como se dentro de um jogo se estivesse! E, estamos!!!

 

BRINCAR SEMPRE…com uma intencionalidade pedagógica (um palavrão) mas, que faz todo o sentido porque só assim se compreende porque é que os nossos bebés/crianças estão muito mais despertos para tudo e todos – porque será?!

 

Falando dos estudos que lemos sobre a Neuro Educação de que os bebés já nascem – aconteceu com todos nós – com todas as conexões nervosas (outros palavrões) que vamos utilizar nos restantes dias das nossas vidas – temos que pensar em fazer(mos) o melhor com isto, certo?

 

Daí darmos desafios, estímulos, explorações às nossas crianças – porque o cérebro tem uma imensa plasticidade que faz toda a diferença.

 

Aspetos científicos à parte, temos também os outros – os pedagógicos!

 

E aí, temos nas nossas Creche (s) registos do que fazemos, do que pensamos fazer, do Como fazemos e de como iremos fazer. Registos do que observamos das crianças, como são, como se sentem, o que fazem, como fazem, o que nos faz saber sempre um pouco mais de cada um/uma e da sua individualidade!

 

E, depois, podem perguntar vocês – Para quê tudo isto? Nem sequer sabia que faziam tudo isto!

 

Ah, pois, mas, por não saber não queira dizer que não exista, que não se faça!

 

Falando pela positiva agora – FAZEMOS, Registamos, Avaliamos como correu, como poderia ser melhor (ou não!) e como voltaremos a fazer a seguir! Programar, avaliar, registar, querer fazer de uma outra maneira mas…

 

Há que conhecer o Grupo de crianças no seu conjunto e na sua individualidade!

 

Há o Tempo e o Espaço – tempo de acontecer, de demorar no que as crianças mais gostaram, de querer voltar a acontecer; há o tempo das rotinas, do dia a dia que o relógio continua sempre a girar, uma e outra vez!

Há o Espaço – dentro e fora da sala, com isto e com aquilo e com os materiais que vamos levando, trazendo e voltando a explorar; Há o espaço do que cabe dentro de nós e do que já não cabe nem nunca quis lá ficar – os Afetos têm um espaço do tamanho dos nossos corações, muito para além, ainda sempre mais!!!

 

Há as famílias – e, trabalhamos tanto com as famílias! Os dias de calendário que vão sendo registados e vivenciados e os outros – o do estar próximo, tão próximo do coração dos filhos e das filhas que muito dizemos e falamos: das birras, das chuchas, das fraldas e do deixar ir, das higienes, do desenvolvimento no seu todo e em partes que se querem para lá de analisadas nas suas competências únicas, do que é de cada um e do outro!

 

Há o trabalho de equipa – com as dinâmicas de cada equipa, conquistas e perdas, dedicação e reviravoltas que por vezes acontecem mas, com a certeza que, nesta Caminhada, estão juntos!!!

 

As Creches são assim – com reuniões fantásticas (é mesmo o termo) de expectativas de como vai ser o ano, de entrega e envolvimento! Há reuniões que vão muito para além do próprio bebé/criança – que chegam ao interior do que é ser pai e mãe e avó ou tio e tia!

 

Com artigos com temas que vão para casa, assim como quem pede desculpa de, muitas vezes, não saber utilizar as palavras corretas porque a linguagem do coração passa muito dos limites do tal Espaço e Tempo que temos!

 

Há também teatros para bebés/crianças que vão às Creches e que nos fazem sonhar muito, um pouco mais – com sons do mar e do vento e dos patos e dos piu pius!

 

E, dizem-nos tantas vezes – “Mas, eles são tão pequeninos, nem sequer falam!” – ah, falam tanto que, com um som apenas, dizem-nos tanto – com os Olhares e o Olhar do Coração; com as suas mãozinhas pequenas e gorduchas (muitas são!) que tocam aqui e ali e voltam a tocar e a explorar!

 

Gatinham, equilibram-se, caem, andam e voltam a cair – como a Vida que anda às voltas por nós e bem no meio de nós!

 

Aprendemos tanto – com os bebés/crianças! Sentimos sempre que aprendemos tanto com eles que a relação fica com um lado da balança mais para lá do que para cá – Aprendemos mais com eles, verdade?! Basta estarmos atentos e disponíveis! Difícil de fazer? Hum, sabemos que não, é só mudar a ordem das prioridades que muitas vezes nos perseguem!!! As prioridades têm que ser eles – AS CRIANÇAS !!!

 

Há também o rebolar na relva, o pisar a terra molhada com as galochas (ou sem elas…), ou só porque sim, porque é tão apetecível e sabe tão bem mexer na lama e levá-la à boca para senti-la um pouco mais. E aos pés!

O corpo é todo nosso para entrarmos em contacto com o Mundo e, vale tudo: mãos, braços, pernas, cotovelos, pés – tudo serve para pintar, tocar e sentir que está cá em Nós!!! Experienciar o Corpo que temos em todas as suas dimensões!!!

Há um beijinho repleto até mais não poder de Ternura, de Aconchego e de segurança que nos dão os que cuidam de nós! Há a música suave e tão nossa da manhã, do adormecer, do acordar e do que for – a que eu levo e a que me dão a conhecer! Perguntamos – “estou a ouvir esta música porquê?!” – porque há sempre uma banda sonora neste enorme filme da nossa vida – a BIG Picture!

E, quando pensamos em Creches, VIVEMOS TUDO ISTO – OS NOSSOS BÉBÉS/CRIANÇAS, as FAMÍLIAS e os Educadores e Auxiliares!

 

– Andámos muito para aqui chegar…mos?

 

– Nem queiram saber mas, o que importa MESMO é que chegámos e… assim são as nossas Creches!!!

 

Bem hajam a todos que fazem a diferença com os nossos bebés/crianças!

Célia Gandres

Nota: Título baseado na letra da canção de José Mário Branco

 

Segunda canção – Letra de José Régio

Célia Gandres

 

Educadora de Infância/ Psicóloga Educacional/ Mestrado em Psicologia Educacional e Diploma em Estudos Doutorais/ Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses

 Ainda e Sempre Criança, que vive o Mundo com mãos nas tintas e na terra molhada e, no coração de Muitos!!!

Foto/Imagem: Susana Cunha/Viseu – Muito Obrigada, Adoro as suas fotos!!!